domingo, 13 de maio de 2018

Spoilers - Diego Grando


*Por Thiago Scarlata


A coloquialidade de Diego Grando é seu instrumento para a formatação de uma obra (desde Desencantado Carrossel e passando por Sétima do Singular) que ocorre num constante agora. O cotidiano pulsante das cidades, com seus ascensoristas, caixas de supermercado, a operadora de telemarketing, o íntimo máximo do banheiro de casa - e todas as sutilezas sussurradas aparentemente aleatórias que deixamos escorrer pelo ralo -, o não-fumante, todos esses pequenos rituais como o de acender um fósforo ou mesmo o ato de escrever um poema (e o que isso implica) é alvo de Grando.
Então, após um hiato de quase 10 anos, nos chega Spoilers (Confraria do Vento, 2018), um livro em que fica evidente um mergulho mais profundo do autor em relação às suas últimas publicações. Aqui, temos o melhor de Grando (pontos já mencionados no parágrafo anterior) aliado a um novo ingrediente: o tempo.
Nessa nova obra, há tanto uma exploração da memória, quanto uma antiga marca de Grando: o trato com elementos da contemporaneidade. Em relação a este último apontamento, se compararmos seu penúltimo livro (Sétima do Singular, Não Editora, 2009) com Spoilers, teremos o retrato de duas épocas, o que é um ponto interessantíssimo para quem acompana a trajetória do escritor, doando-nos, também, sua forte substância retratista.
O livro é dividido em duas partes: "Passado Pressentido" e "Presente Prorrogado". O primeiro, mais ligado, naturalmente, à memórias, sejam familiares, de infância, de lugares, enfim, uma ode revisitada, uma rememoração poética do hoje homem Diego Grando, que nos brinda com sua bagagem de vida e de arte - e o poeta sabe como poucos mesclá-las e traduzi-las ao papel. O segundo, é um almanaque da pós-modernidade. Como já dito, uma das matérias de Grando é o hoje. O textão da rede social, a função "soneca" do smarthphone, a praça de alimentação de um shopping, também um fóssil, uma lâmpada e um mclance feliz. Entretando, cabe alertar: não esperem descrições humoradas, literalidades e associações de cunho meramente crônico. Em Grando nada é atoa. Há questionamento, sarcasmo e crítica. O poeta faz o que se espera dos grandes: sugere.
Melhor do que minhas palavras para exemplificar, são os dois poemas do livro que selecionei e que agora compartilho abaixo, e, em seguida, uma entrevista que fiz com o autor:


MEMORABIBLIA III


Afora os que estavam nos dedos
pouco soubera dos números
e por que se contasse com eles
a avó que viveu menos.


As letras que - sublinhadas
com a ponta da unha - se liam
trazendo tendência ao tédio
ficaram pra tias, pras tias.


Viver foi, afinal, ir vivendo
sem fórmulas ou aforismos.


A avó que viveu menos
terminou - como
disseram - confusa
mas isso não vinha ao caso.


Vivem menos e casou
com o avô que viveu mais:
inversamente proporcionais
na mesma gaveta do cemitério.


                   ***



PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO


A vida - esse burrito de argamassa
que a gente vem comer com fome e pressa
e para digerir leva um bocado


O tempo - esse temaki de água-viva
um cone algodoado feito luva
que a mão humana nunca é que se livra


O ser - essa salada contingente
de folhas frutas bolos
chochos de esperanã


A lógica - esse hambúrguer carbonato
de sódio lítio glúten glutamato
e uma porção pequena de poliestireno


A moral - essa pasta nada à moda
escalopes ao molho madeira e talheres
pretos plásticos embalados


A razão - essa torre de chopp
esse xarope utópico
gaseificado


A ética - esse suco descartável
polpa de água batida
em copo ecológico certificado


A fé - esse café de águas passadas
por cápsulas viçosas de alumínio
aos pingos espartanos de aspartame


A metafísica - essa paleta intraduzível
palito enobrecido
entorpecido de recheio


O cosmo - esse amontoado de pequenos sóis
com tampo de granito onde orbitamos
acenando ansiosos para que nos vejam


CROQUI – Conte-nos um pouco sobre como foi escrever um livro como parte de uma tese. Como isso se deu?
DIEGO GRANDO - Do ponto de vista acadêmico – ou burocrático, como preferir –, dá pra dizer que foi tranquilo, uma vez que, nas duas universidades mais importantes de Porto Alegre (a UFRGS e a PUCRS), já existe um espaço legitimado para a Escrita Criativa, ou seja, para a produção de dissertações e teses que se estruturem a partir de uma produção ficcional/poética. Eu, inclusive, já tinha passado por isso: meu livro anterior, Sétima do singular (Não Editora, 2012), tinha sido parte da minha dissertação de mestrado, na PUCRS. Então, não era uma novidade pra mim propor um trabalho desse tipo – afora, claro, a novidade inevitável que é passar por todo o processo de fazer uma tese, o tempo envolvido, as exigências (pessoais e institucionais), essas coisas – e também não era uma novidade na UFRGS, muito embora meu trabalho tenha sido o primeiro em poesia – e, evidentemente, eu era um corpo estranho entre meus colegas, afinal, era sempre embaraçoso ter que responder à pergunta: sobre que é o teu trabalho?
As questões que podem surgir daí, me parece, giram em torno do porquê e do como isso funciona, do ponto de vista prático: tive aulas de criação poética? O que se ensina/aprende nesse tipo de formação? Além dos poemas, o que mais constitui o trabalho? Como se avalia esse tipo de trabalho?
Pra não me alongar tanto: cursei as disciplinas do currículo tradicional do Pós em Letras da UFRGS, entre elas havia uma (mas puramente teórica) sobre processos de criação literária, e uma, em formato mezzo-oficina, de poesia brasileira. Ou seja: a criação poética era responsabilidade minha, não havia ninguém solicitando que eu escrevesse tal ou tal coisa, ou de tal ou tal jeito. A Márcia Ivana, minha orientadora, sempre me deixou muito livre pra fazer as coisas do meu jeito, isto é, não só escrever os poemas, mas dar corpo ao restante da tese. No caso, fiz uma pesquisa extensa, bem mais extensa do que eu tinha planejado inicialmente, sobre a presença do tempo na reflexão sobre a criação literária, partindo lá das Artes Poéticas e Retóricas da Antiguidade, passando por prefácios, cartas, depoimentos de poetas sobre o próprio processo criativo e chegando na Crítica Genética. Eu analisei, daí, a função – ou melhor, as funções, foi o que vim a descobrir e sistematizar – do tempo na criação poética. Além disso, fiz dois ensaios sobre poetas contemporâneos (Marco de Menezes e Angélica Freitas) e, ao final, uma espécie de depoimento sobre o processo de escrita do livro, e do livro dentro da tese, ou seja, mais ou menos o que estou fazendo aqui.
O legal disso tudo é que o orientador e a banca atuam, mais do que como avaliadores, como “primeiros leitores” da obra, isto é, eu tive a grande chance de ter, além da Márcia Ivana, minha orientadora, o Altair Martins, o Antônio Sanseverino e o Alckmar Santos lendo e comentando meus poemas, fazendo sugestões, etc. Nesse sentido, a entrega da tese é o final de uma coisa, mas não de tudo. Aí, depois da defesa vem o trabalho normal (e difícil) de publicação: o livro se descola da tese e vira um volume isolado, tem que achar editora, revisar e mudar mais umas tantas vezes, até que ele fique pronto. Como qualquer livro.

CROQUI – Sabemos que não gosta muito de falar sobre uma “ideia geral” da obra, pois, nas suas palavras, “o grande barato está em como cada um vai interpretar e lidar com o livro”. Ainda assim, poderia nos ceder alguns pontos de norteio sobre Spoilers ?
DIEGO GRANDO - Bom, falando sobre o que me parece mais óbvio – partindo do título e da divisão do livro em duas partes, “Passado pressentido” e “Presente prorrogado” –, o núcleo está na questão do tempo (não por acaso, é o tópico que abordei, só que de outro ângulo, na parte teórica da tese). Minha vontade não era falar do tempo, mas com o tempo, colocar as coisas em função do tempo, apesar de eu não saber explicar muito bem o que isso quer dizer. Enfim, tomando essa premissa como verdadeira, o tempo passa a se desdobrar em várias formas: memória, família, envelhecimento, o aqui e o agora, futuro, morte. Tanto é que eu passei a ler coisas bem variadas sobre tempo, da filosofia à física, Santo Agostinho, Stephen Hawking, Ricœur, Norbert Elias, Étienne Klein, Heidegger, Agamben, por aí vai, e acho que isso acabou se refletindo no livro.
Nessa de falar com o tempo, foi ficando mais evidente pra mim a necessidade de trabalhar com poemas um pouco mais longos (em relação ao que eu já fazia), de buscar nessa dilatação do tempo pela linguagem algo das experiências que eu queria provocar/produzir. Paralelamente a isso, não me interessava puramente “olhar para trás”, eu queria era falar do presente, então, de certa maneira, eu precisava arrancar o passado do lugar dele e trazê-lo para o agora. Aí fui me dando conta que, pra fazer o passado virar presente, seria preciso também fazer o movimento inverso, uma espécie de contrapeso: transformar o presente numa forma de passado. Assim, tudo ganharia essa cara mais opaca do presente, que é o fato de nunca sabermos ao certo o que está (nos) acontecendo, essa impossibilidade de distinguir relações de causa e consequência. Tudo meio que vira spoiler, mas de uma narrativa que é, no fim das contas, desconhecida, inacessível. O presente é puro spoiler, mesmo que a gente só venha a perceber depois, quando já deixou de ser presente.

CROQUI – Porque um intervalo tão espaçado entre seus dois últimos livros? Isso está ligado a novas práticas no seu processo de maturação da escrita, ou foi algo mais ligado à correria do cotidiano?
DIEGO GRANDO - São vários motivos, e os dois apresentados na pergunta são verdadeiros. Começando pelo primeiro: escrever sempre foi algo demorado pra mim. Não sou alguém inspirado, intuitivo, iluminado, não tiro poemas da cartola. Meu primeiro livro, Desencantado carrossel, com toda aquela cara de tudo-o-que-eu-fiz-até-aqui que acontece muito num primeiro livro, levou seis anos pra ser escrito. Aliás, quando ele saiu, em 2008, eu já estava com o segundo encaminhado, porque fazia parte da minha dissertação de mestrado, defendida no mesmo 2008. Mas aí fui reescrevendo, mudei poemas, troquei o título, e o Sétima do singular saiu só em 2012, depois que eu já tinha publicado aquele livretinho, 25 Rua do Templo / Palavra Paris, em 2010, escrito basicamente no ano anterior. Ou seja, não há linearidade entre o que escrevi e publiquei. Dá pra entender por que fui me debruçar sobre o tempo? Nesse sentido, Spoilers vem colocar uma certa ordem nessa bagunça (mas é uma bagunça saudável, e a ordem é algo bem fácil de se perder).
Outro fator pra essa distância temporal é o fato de que eu já não tinha a pressa dos anteriores: do primeiro, porque é o primeiro, a existência enquanto autor está meio condicionada a ele; do segundo, porque parecia preciso confirmar aquela existência. A partir daí, passou o desejo de publicar. Não o desejo, mas a urgência, e acho que fazer o Spoilers foi viver isso, e de vários ângulos.
Mas tem o lado da correria também, e de tudo o que vem com ela. O fato é que, de 2011 pra cá, passei a viver uma exposição que era então desconhecida pra mim, por vários motivos. Primeiro, comecei a dar aula em cursinho, uma rede grande, dessas que se dá aula com microfone e a turma na verdade é uma grande plateia de cento e tantas, duzentas pessoas. Fiz isso até 2015. Além disso, a publicação do Sétima do singular, em 2012, me deu uma certa projeção por aqui, e logo na sequência, e muito em função do livro, eu comecei a fazer rádio, sem nenhuma ideia de como se fazia isso: tive um programa na Mínima, uma rádio web, o Mosaico Magazine, por uns sete meses, junto com um amigo, o Fábio D’Ávila. Era sobre literatura, mas não só. Depois, passei a participar do programa da Katia Suman (primeiro na rádio Ipanema, depois na Rádio Elétrica, onde continuo até hoje), falando semanalmente sobre qualquer coisa (embora a discussão sobre política de drogas e regulamentação da maconha seja a que mais me mobilize), é um programa de conversa chamado Talk Radio. E, logo mais, comecei a substituir a Claudia Tajes no Sarau Elétrico, até que ela saiu (e eu entrei) em definitivo, ali pelo final de 2013. Em resumo: descobri uma faceta pública que eu não tinha e não imaginava pra mim, e isso me impactou muito. Fui me dando conta de que, por motivos diversos, eu tava falando em microfone de segunda a sexta (às vezes com reprises aos sábados), e aí o que se tornou urgente foi o silêncio, foi sair de cena o máximo possível em todo o resto do tempo.
É claro que isso tudo não está diretamente no livro, mas talvez apareça de alguma forma. E se não aparecer, pouco importa, o fato é que condicionou boa parte dele.

CROQUI – Sabemos que você é um grande agitador cultural em Porto Alegre, frequentando e organizando saraus, ministrando cursos literários, etc. Fale-nos um pouco sobre seus projetos para além do livro em si.
DIEGO GRANDO - Essa é boa! Não consigo me ver no rótulo de “agitador cultural”. Claro, faço o Sarau Elétrico, que tem história e reconhecimento (começou em 1999) e é um evento semanal, além de participar, sempre que me convidam, de eventos literários. Mas agitador cultural eu acho que não sou, essas coisas simplesmente vão acontecendo, não sei lidar muito bem com elas.
O fato é que eu também sou professor, e cada vez mais tenho entrado nessa militância de ensinar literatura, dar oficinas de poesia, fazer essa mediação. Hoje estou na PUCRS, faço um pós-doutorado, tenho um projeto de pesquisa sobre ensino de poesia e criação literária, tenho um grupo de estudos, o Reservatório de Experiências Poéticas, estou organizando eventos, palestras, participando de eventos, bancas, dando palestras. Então, todas as coisas estão meio que convergindo: escrever, dar oficinas de escrita, aulas de literatura, refletir sobre o ensino, buscar formas alternativas de ensino e, principalmente, ler. Eu vivo de literatura, vivo de poesia, mas num sentido amplo: ser poeta é uma parte (a menos rentável, aliás, e a mais importante) do todo.

CROQUI – Quais são suas principais influências literárias e o que está lendo atualmente?
DIEGO GRANDO - Poxa, falar só das influências literárias é deixar boa parte do que me influencia de fora: Gessinger, Escher, números primos, psicodelia, o disco do Chico Anísio de 75, o do Fagner de 76, cultura canábica, ciência aleatória, etc. Fica o registro.
Bom, seria injusto não começar com o Drummond, embora hoje eu já me sinta “independente” dele. O Concretismo certamente me formou. Álvaro de Campos, Baudelaire, Ginsberg e Ferlinghetti. Apollinaire e Blaise Cendrars. Gullar. O João Cabral passou a ocupar um lugar importante nos últimos anos, foi quem mais reli e estudei. Não sei diferenciar bem “influência” de “gosto muito”. Proust. Os ensaios do Auden, os textos teóricos do Pound. Bolaño, Knausgård e Foster Wallace. A poesia do Gonçalo M. Tavares. Glauco Mattoso, Paulo Henriques Britto. Mais recentemente, Szymborska. Me sinto um irmão mais novo: Marco de Menezes, Samarone Lima, Marcelo Montenegro.

CROQUI – Já há novas datas e locais para o lançamento do Spoilers? Caso haja, quais?
DIEGO GRANDO - Rio e São Paulo, provavelmente na primeira quinzena de julho. Talvez Recife no segundo semestre.

Foto: Theo Tajes 


Diego Grando Nasceu em Porto Alegre, em 1981. Publicou “Desencantado carrossel”, “Sétima do sigular”, e o in-fólio “25 Rua do Templo / Palavra Paris”. Fas parte do Sarau Elétrico, tradicional evento de literatura que acontece em Porto Alegre. “Spoilers” foi desenvolvido como parte de sua tese de doutorado em Letras, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.







*Thiago Scarlata (1989) é poeta, músico, escritor e criador/editor do Blog Literário Croqui. Teve poemas traduzidos para o espanhol, publicados em antologias e também nas Revistas GuetoEnfermaria 6EscamandroMallarmagensMonolitoAvenida Sul, IncomunidadeJanelas em RotaçãoPoesia Brasileira Hoje, O poema do poeta, Poesia AvulsaLiteratura&Fechadura, Poesia Primata, Vero o Poema, Carlos Zemek, MOTUS, Jornal Correio Braziliense, Jornal RelevO, além de blogs literários. Foi finalista do PRÊMIO SESC DE LITERATURA 2016 e vencedor do CONCURSO MOTUS – MOVIMENTO LITERÁRIO DIGITAL 2017. É autor do livro de poesia “Quando Não Olhamos o Relógio, Ele Faz o Que Quer Com o Tempo” (Editora Multifoco, 2017).
E-mail: scarlatatts@gmail.com / croquiliteratura@gmail.com

terça-feira, 24 de abril de 2018

Dobres sobre a luz: apogeu e queda da língua


*Por Thiago Scarlata



Dobres sobre a luz (Lumme Editor, 2016) é um livro que veio do futuro (interpretável como “o hoje”). Thiago Ponce de Moraes nos apresenta um livro que poderia muito bem ser um glossário sobre a história da comunicabilidade – onde a literatura, obviamente também está inserida. Há nesta obra elementos que carregam a identidade de eras. Se repentinamente todos os livros do mundo desaparecessem, dobres sobre a luz conseguiria exercer o papel de uma bússola apontando os caminhos ricos e distintos da linguagem.

Em sete seções, o poeta maneja do clássico ao experimental. Como sugere o título, é como se Ponce de Moraes tivesse feito “dobres sobre a luz” e visto bem além, convidando-nos a um salto corajoso para fora dos domínios conhecidos da expressividade. E é inegável, os poemas de dobres sobre a luz têm um brilho diferente: suas formas, técnicas, dicções e experimentações – poemas em QR Code, código morse e binário são alguns desses novos e inventivos elementos presentes na obra e que até mesmo nos fazem buscar recursos tecnológicos para chaveá-los e abri-los à nossa língua comum, uma interatividade que provoca, também, reflexões e questionamento sobre, por exemplo, se há um limite e quais são os novos caminhos da comunicação humana. Portanto, não esperem conforto nessa leitura, pois a proposta aqui é (literalmente) nos fazer sair do lugar-comum, isto é, da experiência convencional que um livro oferta.


Elizabeth Bishop (pág. 43) / @LummeEdiitor2016


Homero (pág. 71) / @LummeEditor2016



Atendo-me, agora, à poesia propriamente dita de Thiago, a marca que fica é a de um canto incendiário. Musicalidade une-se ao místico. Romantismo à máxima abstração. Surrealismo une-se ao épico, exalando uma luz, que é resultado de uma jornada (entendida por vida) composta por várias camadas. Sem esses filtros (desconhecidos por mim), a luminosidade poética de Thiago Ponce de Moraes (essa sim, tive o privilégio de conhecer) não seria a que nos arrebata em dobres sobre a luz. Vejamos pela fresta um pouco dessa luz, exposta em “Um e Três Sonetos” (pág. 21):


Ancoragem

Construo sobre a luz tua morada,
As cinzas que irás lograr tardia.
Construo tua chegada, tua saudade,
A sombra inatural que em ti esculpes.

Construo a farsa, o rosto da amada,
Os simples gestos que irradiam os dias.
Construo sobre os traços da tua culpa
A curva da viragem: a ancoragem

Intuída corpo adentro, à margem
De teu ventre em mênstruo devoluto.
Construo sobre a luz do branco hábito

O rubro hálito desta vigília.
Construo avesso ao viço da estiagem
O teu regresso em torpe balbucio.


Por fim, para além da nossa crítica, o autor gentilmente nos cedeu uma entrevista sobre a sua interpretação da própria obra (finalista do Prêmio Jabuti 2016), palavras esclarecedoras que fornecem mais ferramentas para uma melhor imersão e aproveitamento de sua poesia. Segue abaixo:


CROQUI: O que é “Dobres sobre a luz”?

THIAGO PONCE DE MORAES
Responder a “o que é Dobres sobre a luz”, para além de simplesmente dizer: é um livro de poemas – remonta à própria impropriedade que carrega esta seleção. Digo: dizer o que é este livro, este grupo de poemas, é tanto impróprio quanto impossível, numa medida análoga àquilo que o livro porta: algo que escapa, que não se circunscreve definitivamente, que segue a caminho.

Assim me parece ser porque o livro, da forma como o leio, tende a convergir para a deriva da ilegibilidade última de toda escrita – ilegibilidade inerente à escrita em geral, sim, mas que aqui passa a ser agravada. A impropriedade primeira é justamente esta: uma seleção de poemas que, a princípio, se apresentam diante dos olhos de outrem para serem lidos, mas que, contra o contrato previamente firmado, procuram resistir a essa leitura, flagrando o caráter falho da noção de comunicabilidade (geralmente bem escamoteado pelo uso cotidiano da linguagem). 

O livro, de modo geral, acena para o tensionamento da dualidade escrita-leitura, acena para questões que são para mim caras desde o meu primeiro livro, Imp.; questões que vêm a reboque do problema mais amplo da ilegibilidade que acabo de mencionar. Comparecem, nessa medida, categorias como dizível-indizível, traduzível-intraduzível, comunicável-incomunicável, arcaico-contemporâneo, visível-invisível, audível-inaudível etc. E o lapso dessas dualidades – o que não quer dizer o estabelecimento de dicotomias; ao contrário, trata-se de certo adensamento da variação de matizes de um extremo a outro.

Para além disso, a experimentação é algo a que sempre tentei submeter a escrita que se propôs em meus trabalhos. Gosto de pensar a ideia de experiência na chave de Lacoue-Labarthe (entre outros), que a aproxima da noção de risco/perigo. E, então, o que está em risco nesse experimento com a palavra é a própria linguagem, seus acordos, seus tratados, seu domínio, sua discursividade. A própria ideia de temporalidade está em risco, deslocada que está de certa corrente atual. É assim que, penso, os poemas lançam a linguagem à deriva – à revelia de seu fascismo: de sua higiene aplanadora, de sua clareza acachapante, de seu extremo autoritarismo semântico etc.

Penso que a poesia deva se manter em devir, deva se manter em algum lugar instável, precário, a caminho. Dessa forma, a poesia pode se colocar contra, justamente, a autoridade da escrita em geral, passando a fragilizar e a surpreender a qualidade arbitrária da linguagem, sua absoluta farsa, seu teatro do absurdo. A poesia sabe que a essência do diálogo é a divergência, o não prontamente identificável, a coesão e a convivência de contrários, de impossíveis. E Dobres sobre a luz, a meu ver, tenta atravessar e propor esse caminho.

Outra característica forte dos poemas desse livro, que também me move através dos anos, é a necessidade de o poema se erguer como uma peça sonora antes mesmo de fazer sentido (se é que o fará, no sentido da poiesis; se é que o seu sentido não é ser esse lugar em que o nada possa acontecer – esse nada que é tudo: o mito, a la Pessoa). Como no fiat lux, há precedência sonora ante aquilo que vem e não se deixa ver vir. Esse estatuto elevado que tento garantir para o traço sonoro (o ritmo, a cadência, o acento etc.) também se respalda no tensionamento do sentido e do legível que procuro anunciar.

Penso, enfim, mas não conclusivamente, o poema como uma casa remota e insuficiente, em ruínas, a que visitar. Um lugar de ter de onde se ir, citando o mestre Max Martins. Um lugar que atravessa aquele que lê ao passo que é também a travessia que o leitor faz. E continua.










Thiago Ponce de Moraes (Rio de Janeiro, 1986–) é poeta, tradutor e professor. Publicou os livros de poemas Imp. (Caetés, 2006), De gestos lassos ou nenhuns (Lumme Editor, 2010) e Dobres sobre a luz (Lumme Editor, 2016, livro finalista do Prêmio Jabuti), bem como a plaquete bilíngue Glory Box (Carnaval Press, 2016), na tradução do poeta britânico Rob Packer, e a plaquete uma fotografia (Leonella, 2017). Na área de ensaios, publicou Remos e Versões (Multifoco, 2012) e Agora sim... talvez seja eu e mais alguém: específica experiência da leitura de Paul Celan e Ricardo Reis (NEA, 2014). Possui doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) com estudo sobre a obra de Paul Celan. Participou, entre outros, do 31º Festival Internacional de Poesia de Tróis-Rivières (Canadá), do XX Encontro Internacional de Escritores (México) e do 55º Struga Poetry Evenings (Macedônia), o mais antigo encontro internacional de poetas. Publica leituras de poesia contemporânea semanalmente na Poemateca (www.instagram.com/poemateca) e publica de maneira esparsa no blog Outra Respiração (www.outrarespiracao.wordpress.com).





*Thiago Scarlata (1989) é poeta, músico, escritor e criador/editor do Blog Literário Croqui. Teve poemas traduzidos para o espanhol, publicados em antologias e também nas Revistas Gueto, Enfermaria 6, Escamandro, Mallarmagens, Monolito, Avenida Sul, Incomunidade, Janelas em Rotação, Poesia Brasileira Hoje, O poema do poeta, Poesia Avulsa, Literatura&Fechadura, Poesia Primata, Vero o Poema, Carlos Zemek, MOTUS, Jornal Correio Braziliense, Jornal RelevO, além de blogs literários. Foi finalista do PRÊMIO SESC DE LITERATURA 2016 e vencedor do CONCURSO MOTUS – MOVIMENTO LITERÁRIO DIGITAL 2017. É autor do livro de poesia “Quando Não Olhamos o Relógio, Ele Faz o Que Quer Com o Tempo” (Editora Multifoco, 2017).

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Entrevista com Marcelo Maluf - A Imensidão Íntima dos Carneiros

*Por Thiago Scarlata
"As explicações sempre me desencantam. Prefiro ler. Prefiro escrever. Andar a pé por aí, é literatura."
Marcelo Maluf é escritor e professor de criação literária. Mestre em Artes pela Unesp. Escreveu o livro de contos “Esquece tudo agora" (Terracota, 2012) e os infantis: “Jorge do pântano que fica logo ali” (FTD, 2008), “Meu pai sabe voar” (FTD, 2009) em parceria com Daniela Pinotti, e “As mil e uma histórias de Manuela” (Autêntica, 2013). Em 2015 publicou o romance “A imensidão íntima dos carneiros” (Editora Reformatório),  livro finalista do Prêmio da Associação Paulista de críticos de Arte (APCA, 2015), finalista do Prêmio Jabuti (2016) e Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura (2016), na categoria estreante com mais de 40 anos. Ministrou oficinas de criação literária e mediou Clubes de Leitura em diversas unidades da Rede Sesc, como: Belenzinho, Campinas, Paraty, Jundiaí, Santos, entre outras. Mantém no Espaço Dança da Realidade, em São Paulo, a Oficina: Acompanhamentos de Projetos Literários, desde 2014.

CROQUI – Fale-nos um pouco sobre como surgiu, desenvolveu-se no livro e o que representa simbolicamente a figura do carneiro no romance.
MARCELO MALUF -  Meu avô quando criança, (assim como no romance) pastoreava carneiros na montanhas de Zahle, no Líbano. A ideia desenvolvida no livro, do carneiro como símbolos de mansidão e sacrifício, surgiu no processo de escrita. Logo, é claro, estabeleci a relação com o Cristo. O carneiro é um animal que consta em muitas mitologias, o que eu fiz foi reconhecer essas histórias e trazê-las para dentro da narrativa. Aproximando o animal humano do animal não-humano, fundindo essas figuras e dando, de certa maneira, a possibilidade de nos reconhecermos como animais. Somos essa família de seres sencientes a compartilhar um mesmo planeta, a sofrermos juntos num mundo marcado pelo poder, pela ganância, pelo egoísmo e pela violência. Mas todas essas ideias foram nascendo ao longo do processo de escrita. Fui descobrindo o que eu estava fazendo no ato da escrita.

CROQUI – Qual é a sua relação com a cultura árabe? Em qual grau (se é que há) a herança cultural de seus ancestrais se fez presente na sua vida e literatura?
MARCELO MALUF - Minha relação com a cultura árabe se dá pela música, pela comida e por alguns poucos autores que li, além de alguns filmes. Ou seja, não carrego uma herança cultural de meus ancestrais. A herança que eu tenho é a do neto de imigrantes. Minha avó era Síria e meu avô, Libanês. Mas nem um, nem outro tiveram a preocupação de ensinar a língua ou de transmitir algo que fizesse com que eu estivesse, hoje, mais próximo da cultura árabe. Eu me lembro dos almoços de família com o rico cardápio da gastronomia árabe (libanesa, em especial). E de ouvir minha avó conversar em árabe. Mas era um mundo à parte, eu não tinha acesso a ele. Por isso, só fui compreender que eu era neto de imigrantes, ter essa consciência, quando fui buscar pelas histórias que estão em meu livro. 

A Imensidão Íntima dos Carneiros (Editora Reformatório, 2015) - @MarceloMaluf

CROQUI – Em que medida o desvelo do segredo familiar evidenciado no livro te impeliu a transformá-lo em ficção e o como a sua família recebeu  isso após a publicação?
MARCELO MALUF - Foi imediato o processo. Assim que ouvi a história contada pelo meu tio, eu soube que precisava compreender melhor tudo aquilo. E o meu jeito de compreender seria escrevendo. E foi o que fiz. Só que demorei muito até chegar ao romance. Foram pelo menos dez anos mastigando e digerindo essa história. Quanto à minha família, tive dois tipos de recepção. Os que leram o romance não souberam dizer o que era invenção e o que era verdade. Confesso que, hoje, eu mesmo fico perdido. Afinal, a memória é uma fusão de imagens, sensações e histórias que vivemos. Acredito que seja esse o poder de reinventar a memória. E outros, não sei se leram, fizeram silêncio e não comentaram. Ou seja, o que para mim foi uma revolução pessoal, não teve o mesmo impacto em outros familiares. Mas com os leitores, em geral, tenho recebido relatos fascinantes da experiência com a leitura do livro. O que me deixa muito feliz.

CROQUI – Um dos motes do livro é o medo como herança familiar. Discorra um pouco sobre a história que o inspirou na composição deste.
MARCELO MALUF - Não foi fácil reconhecer que eu havia recebido como herança familiar o medo. Não foi fácil identificar que o que eu sentia era medo de estar no mundo, medo de escrever, medo de arriscar, medo de sair de casa, inclusive. E que esses medos todos que viviam em mim, tinham um passado, tinham uma longa trajetória, era o medo que me impedia de seguir adiante e ser seja lá o que for. Encontrar a raiz desse medo na história que o meu tio me contou sobre a infância do meu avô e a tragédia vivida por ele no Líbano, foi um salto que eu pude dar na compreensão disso tudo, o que não significou viver sem o medo, mas pude ter a clareza do lugar de onde ele vinha e assim, com o uso da linguagem eu tive coragem para enfrentá-lo de igual para igual, conhecendo seus vícios, fraquezas, assim como ele conhecia os meus. Dessa batalha sem vencedores, nasceu o romance. Saímos dela, o medo e eu, um pouco mais humanos e mais maduros.

CROQUI - Conte-nos como foi assumir a voz de seu avô, já que o livro intercala narradores. Como foi pra você (re)construir a figura de um ancestral de uma significação tão forte que não chegou conhecer?
MARCELO MALUF - É preciso dizer que assumir a voz de Assaad, por mais que eu soubesse que se tratava de um personagem, foi uma escolha dolorosa. Dolorosa no sentido de que eu tive de matar aquele avô criado pelo ponto de vista dos meus pais e dos meus tios, para inventar um avô que era aquele criado por mim. Hoje, a memória que tenho de Assaad é uma mistura dessas duas fontes, a do avô encarnado e a do avô imaginário. E não tenho nenhuma pretensão em saber qual é a verdadeira. Não acredito na memória como algo factual e linear. E posso dizer, também, que meu avô hoje é alguém com quem convivi de perto, bem diferente de antes da escrita do livro.

CROQUI - Em que medida a espiritualidade/religiosidade foi importante na narrativa?  
MARCELO MALUF - Talvez seja importante dizer aqui que a minha relação com a espiritualidade diverge das instituições religiosas. Eu tenho respeito pelas instituições, mas não me interessam seus dogmas, os ismos. O que me leva para a espiritualidade é o mistério, a mística, assim como o caráter terreno e humano dos seus avatares, como o Cristo, Maomé e Buda. Dito isso, posso afirmar que essa espiritualidade está no centro do meu romance, é o rio que corre pela narrativa e dá sustentação ao texto. Mas, é claro, isso não está fechado, outras possibilidades de leitura podem e devem ser feitas.

Marcelo Maluf - Prêmio São Paulo de Literatura @2016

CROQUI - Como se dá seu processo de criação literária?
MARCELO MALUF - De modo geral, eu me conecto, primeiramente, às sensações e imagens: cenas, sons, cheiros, memórias. Depois de experimentar tudo isso, eu me encontro com as palavras, as personagens, o lugar, as ideias. E enfim, a linguagem, a voz que irá narrar. O meu processo é lento e vou me perdendo no meio do caminho. Depois volto a me encontrar e sigo. O que me angustia muito. Por enquanto, tem sido assim o meu processo.

CROQUI – Há no seu livro uma forte carga poética. Você também é um leitor de poesia? Fale-nos sobre como você enxerga essas fronteiras (se tênues ou não) entre prosa e poesia.
MARCELO MALUF - Antes de ler prosa, o que me encantou em literatura foram os poetas, a poesia. Aos 13 anos eu lia com muito prazer: Drummond, Quintana, Bandeira. Depois me apaixonei por Murilo Mendes, Garcia Lorca, Oswald de Andrade, João Cabral, ....Ou seja, nessa época eu queria mesmo era ser poeta. Cheguei a escrever muitos poemas. Depois joguei tudo fora. E os prosadores vieram só um pouco depois. Como leitor, gosto tanto da prosa que se aproxima da linguagem poética quanto da prosa mais direta, objetiva. Em alguns autores essas fronteiras ficam mais fluidas, em algumas narrativas da Clarice ou da Hilda, por exemplo. Mas não me apego a isso. Tudo depende do projeto de cada autor. No meu caso, essa carga poética vem naturalmente, não forço nada, é o meu modo de enfrentar a linguagem. Se isso se deve ao fato de eu ser leitor de poesia, pode ser que sim. 

CROQUI - Está trabalhando em um novo livro? Caso sim, o que você já pode nos adiantar?
MARCELO MALUF - Sim, estou no processo de escrita do meu segundo romance, cujo título é “Ao Redor da Figueira”. Trata-se de uma história trágica de amor, uma tradição na história da literatura. Em verdade, o romance nasceu de uma pergunta que minha esposa me fez certo dia: “E se eu não mais existisse, o que você faria?”. Eu não soube responder de imediato. Então me sentei para escrever e nasceu o romance. Mas trata-se também de uma narrativa sobre o mundo urbano versus o mundo rural, sobre a relação entre o ser humano e a natureza, sobre o impacto do nosso modo de vida sobre outras criaturas, sobre o modo como a memória reinventa os acontecimentos do passado, sobre culpa, morte e coragem. E tudo acontece de alguma maneira, ao redor da imagem-símbolo de uma figueira. Enfim, ainda estou em processo, mas o caminho é mais ou menos esse.

CROQUI - Quais são suas influências literárias mais importantes e o que está lendo atualmente?
MARCELO MALUF - Alguns autores e autoras são realmente importantes para mim, entre eles estão: Hermann Hesse, Nikos Kazantzákis, Leon Tolstói, Fernando Sabino, Rumi, Murilo Mendes, Juan Rulfo, Hilda Hilst, Franz Kafka, Italo Calvino, Murilo Rubião, Walt Whitman, Clarice Lispector, Alejandro Jodorowsky, Adélia Prado, Ernest Hemingway, Chuang Tzu, Alberto Caeiro, Teresa D’ávila, João da Cruz....Enfim, como se pode perceber, é uma mistura e tanto. Estou lendo “Adeus às armas”, do Hemingway e os “Poemas Completos”, do Herberto Helder.

CROQUI - Para além de um novo livro, quais são seus projetos literários e o que tem feito de interessante nesse sentido?
MARCELO MALUF - Tenho alguns livros infanto-juvenis publicados. Um deles foi escrito em parceria com minha esposa, Daniela Pinotti, cujo título é “Meu pai sabe voar” (FTD, 2009).  Há um bom tempo que temos o projeto de escrever novos livros. Mas no momento, Daniela está escrevendo um juvenil. Assim que ela terminar o seu livro e eu o meu, queremos sentar para escrever. É uma parceria que me provoca e estimula muito. A Daniela é minha primeira leitora e quem faz as críticas mais severas ao meu trabalho. Além de admirá-la como escritora também. 

CROQUI - Como vê a questão política no país e o que espera desse ano eleitoral?
MARCELO MALUF - Estamos vivendo um verdadeiro desmonte da democracia, dos direitos humanos, da liberdade de expressão. Um banquete de violência e perversidade contra os direitos dos trabalhadores, principalmente dos mais pobres. Vejo com profunda indignação o fato de que ficou escancarado o quanto eles (os que hoje estão no poder) não estão nem aí com o povo, em cumprirem o que deveria ser a sua função como políticos: a de representar o povo. Eles dão de ombros para as reinvindicações. Em sua maioria, os nossos representantes querem que os pobres sejam para sempre pobres, para que eles fiquem cada vez mais ricos com suas mansões, ternos, carros, pagando suas viagens, sua vida de luxo, etc. Temos nesse momento uma vereadora que foi executada e um prisioneiro político. E estamos gritando nas ruas e estamos gritando para o mundo. E nada se faz. A grande mídia não mostra, é conivente. É parcial. A bola do jogo é deles, e eles mudam o que quiser, mesmo sofrendo um gol, eles alegam que não valeu, que foi impedimento, eles tem os juízes comprados. E alguns juízes no Brasil se vendem. E não são poucos. Eles mentem e tudo bem.  Portanto, e isso é só uma parte do caldo espesso da canalhice, eu estou bem pessimista. Espero que a esquerda se organize, sem vaidades intelectuais nesse momento e possa juntar as forças, estamos carentes disso. É o que eu espero.

CROQUI - O que é literatura pra você?
MARCELO MALUF - Para mim, a literatura é um grão de areia dentro do qual eu nasci e irei morrer. Dentro dele pude me apaixonar pela vida e ter amor e repulsa pelo ser humano, dentro dele conheci histórias mais verdadeiras de seres imaginários do que as mentiras e falsidades de seres de carne e osso. A literatura é esse grão de areia insondável, miúdo, assim como poderia ser uma gota de água. É um mistério que me fascina e prefiro mantê-la assim. Prefiro viver a linguagem, e sei que a boa literatura se faz pela linguagem, não só, é claro, mas não quero que me expliquem nada. As explicações sempre me desencantam. Prefiro ler. Prefiro escrever. Andar a pé por aí, é literatura.









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*Thiago Scarlata (1989) é poeta, músico, escritor e criador/editor do Blog Literário Croqui. Teve poemas traduzidos para o espanhol, publicados em antologias e também nas Revistas Gueto, Enfermaria 6, Escamandro, Mallarmagens, Monolito, Avenida Sul, Incomunidade, Janelas em Rotação, Poesia Brasileira Hoje, O poema do poeta, Poesia Avulsa, Literatura&Fechadura, Poesia Primata, Vero o Poema, Carlos Zemek, MOTUS, Jornal Correio Braziliense, Jornal RelevO, além de blogs literários. Foi finalista do PRÊMIO SESC DE LITERATURA 2016 e vencedor do CONCURSO MOTUS – MOVIMENTO LITERÁRIO DIGITAL 2017. É autor do livro de poesia “Quando Não Olhamos o Relógio, Ele Faz o Que Quer Com o Tempo” (Editora Multifoco, 2017).